Guerra do Contestado a negação da história

“Em dados oficiais, teriam morrido entre 8 e 10 mil pessoas no Contestado, mas eu, com minhas investigações, acredito que tal número seja superior a 20 mil, pois a cada dia somos indicados para uma nova vala comum de corpos, cemitérios, crematórios, etc. Em suma, eu acredito em mais de 20 mil mortos. É difícil fazer uma aproximação desses mortos por gênero e idade, mas em princípio, o maior número de assassinatos se deu entre homens de briga caboclos e os soldados. Porém, durante o “período do açougue humano”, os jagunços contratados para matar os caboclos e as caboclas do Contestado eliminavam qualquer um que fosse caboclo e aparecesse na sua frente. Por conta disso, algumas centenas de sobreviventes viveram escondidos pelas florestas de araucária por décadas depois da guerra”. A afirmação é do professor Nilson Cesar Fraga, pesquisador da Universidade Estadual de Londrina, que vem há anos trabalhando nas pesquisas sobre a guerra que a historiografia oficial, seja catarinense, paranaense ou brasileira, marginalizou.

Entre os dias 18 e 19 de novembro, o centenário de encerramento da Guerra do Contestado foi  tema do seminário organizado pela APP-Sindicato – Núcleo União da Vitória e pelo SINTE-SC – Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Pública de Ensino de Santa Catarina, com chancela acadêmica da UNESPAR – Campus de União da Vitória. O evento possibilitou rememorar a luta cabocla que por largos quatro anos, entre 1912 a 1916, resistiu aos ataques da velha república sobre as terras do vasto território do Contestado, entre Paraná e Santa Catarina.

Salve CABOCLAS E CABOCLOS da resistência do Contestado. Sua luta não terá sido em vão e justiça ainda será feita sobre suas memórias!

O professor Paulo Pinheiro Machado, da Universidade Federal de Santa Catariana, trabalhou o tema das lideranças do Contestado, suas motivações, experiências e formas de  organização. Apresentou estudos aprofundados da tradição de São João Maria, inclusive, prédicas que se popularizaram, nas quais o monge aproveitou para passar ensinamentos, sobre questões ecológicas: “Árvore é quase bicho e bicho é quase gente!”, “O que a terra dá emprestado, quer de volta!”, “Quem descasca a cintura das arvores para secá-las, também seca sua própria vida!”, “Quem incendeia as matas, um dia terá sua casa queimada!”, “Devemos estar ao lada da justiça e dos que sofrem”. Também discorreu sobre inúmeras concentrações camponesas que se estabeleceram em nome de João Maria, entre os séculos XIX e XX, como: Concentração do Campestre em Santa Maria-RS por volta de 1846, Guerra do Pinheirinho em Encantado-RS, 1902, a própria Guerra do Contestado, o movimento maior e mais longo de todos, e outras batalhas que se seguiram ao encerramento da mesma.

Um dos eventos que chamou bastante a atenção se refere ao Canudinho de Lages-SC, ocorrido em 1897, e que foi assim intitulado pois as autoridades republicanas o associaram ao movimento da Revolta de Canudos no Nordeste Brasileiro. Professor Machado também trabalhou sobre a história social do Contestado, padrão das concentrações camponesas no Brasil Meridional,  práticas religiosas independentes do clero católico, fuga de fazendas e sítios de origem, construção de comunidades autônomas, condenações de práticas mercantis, noções anti-capitalistas. Por aquele período é muito forte a noção de coletivização as terras e bens comuns como fosse um comunismo caboclo.

As revoltas estavam associadas ao enfrentamento do poder local e ruptura de laços de clientelismo. Os ensinamentos e poder de liderança dos monges, ressalvando o popular São João Maria, projetaram para as tradições populares regionais um perfil de conflito mais religioso do que material.

No entanto, Machado afirma: “Paralelamente ao discurso religioso da “guerra santa” dos “pelados contra os peludos”, na defesa da “monarquia celeste” e da “santa religião”, os sertanejos acabaram demonstrando, tanto por discursos como por atos, que desenvolveram uma nítida consciência das condições sociais e políticas de sua marginalização, de que se tratava de uma guerra entre ricos e pobres que lutavam contra o governo, que defendia os interesses dos endinheirados, dos “coronéis” e dos estrangeiros. Essas duas faces do movimento do Contestado (a religiosa e a crítico-social) não foram excludentes, nem mesmo devemos separá-las para efeito didático.

Essa guerra praticamente desconhecida da maioria do povo brasileiro foi um conflito de proporções gigantescas. Envolveu os interesses da nascente república brasileira e seu vício de origem, o entreguismo das riquezas brasileiras aos interesses internacionais.

O professor Ilton César Martins descreveu episódios de revoltas após 1916, revoltas essas animadas pela motivação da grandiosa guerra.

Já o professor Renato Mocellin associou o período da Guerra do Contestado aos dias atuais. É possível afirmar que a república brasileira dos dias de hoje e sua cultura política contém os mesmos conteúdos que deram origem às revoltas daquele período há mais de cem anos, ou seja, o Brasil continua negando à ampla maioria de sua população acesso a direitos básicos.

As atividades foram permeadas por uma cuidadosa programação cultural preparada pela coordenação do seminário. Inúmeros artistas em diferentes expressões, seja no teatro, pintura, escultura, literatura vêm registrando a importância de recuperar essa história para aprofundar a formação da identidade social do povo que habita nos dias de hoje a mesma região dos conflitos.

Encerro esse relato saudando e reconhecendo mais uma vez o esforço da direção do Núcleo Sindical APP-União da Vitória pela belíssima e feliz iniciativa.

E ainda com fala do professor Fraga: se tivéssemos governos democráticos que respeitassem a história e o povo, tanto o governo Richa (PSDB) como o governo Raimundo Colombo (PSD)  teriam transferido por pelo menos uma semana as capitais paranaense e catarinense para União da Vitória/Porto União, por ocasião do centenário de encerramento da guerra. Como são governos da mesma matriz autoritária e elitista da velha república brasileira, parece que nem se lembraram desta efeméride tão valiosa para todos nós.

Salve CABOCLAS E CABOCLOS da resistência do Contestado. Sua luta não terá sido em vão e justiça ainda será feita sobre suas memórias!

 

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