Datafolha mostra direita mais fragmentada que esquerda

Pesquisa é boa para Lula, Barbosa, Ciro e Marina

A principal novidade da pesquisa Datafolha divulgada no domingo foi a estreia de Joaquim Barbosa, que marca de 8% a 10%, a depender do cenário. O ex-presidente do STF chega a 10% numa simulação sem a presença do ex-presidente Lula, que pode ser impedido de disputar pela Lei da Ficha Limpa.

Na largada, Barbosa ameaça Alckmin e se coloca como outsider que pode captar votos de centro, centro-direita e centro-esquerda. Com a pesquisa, deve ganhar força a possibilidade de o PSB lançá-lo à Presidência da República. Sem fazer campanha, tem um início de jornada muito bom.

Obstáculos: capacidade para fazer alianças e mostrar que teria condições de governar. Ciro Gomes (PDT) já deu alfinetada hoje, dizendo que será preciso ver a “consistência” de Barbosa quando “exposto à fricção”. Ou seja, ao debate eleitoral.

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Lula e Ciro

Um dos principais destaques desta rodada do Datafolha é a força de Lula. Mesmo preso, lidera em todos os cenários e teria cacife para ajudar um nome da centro-esquerda a chegar ao segundo turno se ficar fora da parada. Ciro, que pula de 5% para 9% quando Lula sai, parece ser o mais competitivo no campo de centro-esquerda.

A liderança de Lula na pesquisa deve reforçar a estratégia petista de esticar a corda. Ciro terá de ter paciência.

Lula tinha até 37% na pesquisa Datafolha divulgada no fim de janeiro, mas os cenários eram outros, com menos postulantes. Numa cena mais nítida, se pudesse participar, teria até 31%, se a eleição fosse hoje. É basicamente a mesma coisa em termos de cacife.

Essa liderança deverá fazer o PT insistir na apresentação de Lula como candidato, apesar das dificuldades jurídicas para viabilizar a sua postulação. A pesquisa mostra que aumentou um pouco a percepção de que ele dificilmente será candidato.

Nesse contexto, a força como cabo eleitoral é o maior ativo do ex-presidente. Como ele está preso, o PT não vai abandoná-lo agora. Continuará apostando no plano para tirá-lo da prisão e colocá-lo na urna eletrônica.

Isso é bom para Ciro. Quanto mais tempo o PT demorar a indicar um petista, mais chance o pedetista terá de ser esse plano B, ainda que a contragosto de boa parte dos petistas. Quanto mais um petista demorar a substituir Lula, mais dificuldade ele terá para crescer nas pesquisas e obter força para chegar ao segundo turno.

No Datafolha, Fernando Haddad obteve 2%. Jaques Wagner, 1%. Lá na frente, na hora de tomar eventual decisão, caso Lula não possa concorrer, Ciro poderá estar mais bem posicionado do que os dois mais cotados para substituir Lula.

Outros nomes da esquerda estão com baixo desempenho na comparação com Ciro: Manuela D’Ávila, do PC do B, varia de 1% a 3%, a depender do cenário. Guilherme Boulos, do PSOL, fica entre zero e 1%. Logo, se Marina não buscar eleitorado do campo de esquerda e centro-esquerda, Ciro tende a ser beneficiado lá na frente por uma eventual ausência de Lula da corrida presidencial.

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Marina

Outro grande destaque da pesquisa é Marina Silva. Jogando parada, Marina vai de 10% para até 15% num dos cenários sem Lula. Assim como Ciro, é candidata a herdar parte dos votos do petista.

No entanto, o distanciamento do eleitorado mais à esquerda deixa Ciro em melhor posição política para ser esse herdeiro. Para ter mais chance, Marina deveria tentar se reconectar com parcela da esquerda. Uma eventual aliança de Marina com Joaquim Barbosa seria muito competitiva, mas nenhum dos dois quer ser vice. Como estamos em abril e ainda há muito tempo, pode ser que algo mude.

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Direita mais fragmentada que esquerda

A fadiga de material do projeto político e econômico do governo Temer é um problema para MDB, DEM e PSDB. Geraldo Alckmin, do PSDB, varia de 6% a 8%. Mesmo sem Lula, o tucano cresce pouco. Não conquista voto do campo de centro-esquerda. Ele tem de se virar no campo da centro-direita e direita.

Mas a fragmentação de pré-candidaturas desse campo e o desempenho de Bolsonaro atrapalham Alckmin. Alvaro Dias, do Podemos, é uma pedra no sapato do tucano na região Sul, sobretudo no Paraná. Alvaro Dias tem entre 3% e 4% com Lula na disputa e chega a 5% sem o ex-presidente.

O PSDB é o principal avalista do governo do MDB. A imagem está colada à da administração Temer. O mesmo acontece com Rodrigo Maia, do DEM, que é presidente da Câmara e aliado do governo.

Temer, Meirelles e Maia têm desempenho pífio no Datafolha porque são nomes governistas. Para complicar, a fragmentação desse campo é enorme. Os pré-candidatos de direita e centro-direita são 11, levando em conta que o MDB tem 2 nomes: Bolsonaro (PSL), Alckmin (PSDB), Alvaro Dias (Podemos), Fernando Collor (PTC), Flávio Rocha (PRB), Afif (PSD), Meirelles ou Temer (MDB), João Amoedo (Novo), Paulo Rabello de Castro (PSC) e Rodrigo Maia (DEM).

No centro, há dois pré-candidatos: Marina (Rede) e Barbosa (PSB). Ambos podem fazer acenos à esquerda e a direita.

Na centro-esquerda e esquerda propriamente ditas, existem 4 candidatos: Lula (ou outro petista que o substitua), Ciro, Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos. Se incluirmos Haddad e Wagner, seriam seis nomes.

A fragmentação política é maior na direita do que na esquerda. Isso enfraquece mais esse campo político. Para complicar o desejo dos setores mais conservadores da sociedade, Bolsonaro é o líder desse pelotão tão dividido. Estacionado, Bolsonaro bloqueia Alckmin e dificulta a aglutinação da centro-direita e direita.

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STF e Bolsonaro

Bolsonaro mostra dificuldade para crescer, mas também para cair. Não será fácil desconstruí-lo. Processos no STF estão longe de conclusão, sem contar o debate jurídico sobre se eventuais condenações por estupro e racismo seriam enquadradas na Lei da Ficha Limpa. A tendência é dar em inelegibilidade, mas só se o STF acelerar julgamentos a fim de interferir no processo político, assim como a Lava Jato fez com Lula.

Vale notar: Com Lula na disputa, Bolsonaro marca entre 15% e 16%. Sem Lula, 17%. Ou seja, o voto dele, por ora, não é afetado pela participação de Lula ou não na campanha.

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Palácio dos Bandeirantes

O ex-prefeito de São Paulo João Doria lidera a corrida pelo governo paulista, mas sua taxa de rejeição cresceu. Pegou mal a saída da prefeitura. É favorito, mas não terá campanha tão fácil como 2016.

O discurso muito à direita pode levar à uma união contra Doria no segundo turno. A rejeição cria motes para adversários, como “João Enganador”, que o tucano tentou rebater com o “Márcio Cuba”, por exemplo.

O percentual de votos brancos, nulos e nenhum dos candidatos, que é muito alto, tende a deixar o cenário mais indefinido. Esse índice atinge 26% com Skaf e 32% sem o emedebista. Não sabem em que votar 5% ou 6%, a depender do cenário.

Paulo Skaf tende a perder cacife. Tem rejeição alta, 34%. Doria possui 33%.

Márcio França, que tem 22% de rejeição, deve crescer devido à aliança e ao cargo que ocupa. Pode obter fatia de votos que hoje estão com Doria e Skaf. O presidente da Fiesp teria mais chance de se eleger senador.

Luiz Marinho enfrentará a barreira do antipetismo paulista. Deve chegar a cerca de 15%, mas pode perder votos para França, porque fatia dos eleitores de centro-esquerda tende a ver no governador uma forma mais eficiente para barrar Doria.

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Números de São Paulo, segundo o Datafolha

Doria tem 31% no cenário com Skaf. Sem Skaf, vai a 38%. Márcio França tem 8% com Skaf e 9% sem o emedebista. Luiz Marinho, 7% e 9%, respectivamente. Rogério Chequer (Novo), 2% e 3%. Lisete Arelaro (PSOL), 1% e 2%. Alexandre Zeitune (Rede), 1% e 2%.

Fonte: Blog do Kennedy