Adeus às panelas, adeus aos direitos sociais

“É sempre assim. Morre-se. Não se compreende nada. Nunca se tem tempo de aprender. Envolvem-nos no jogo. Ensinam-nos as regras e à primeira falta matam-nos”. Empresto o título deste artigo lembrando um dos grandes romancistas que este planeta conheceu. Dentre outros títulos conhecidos mundialmente, Ernest Hemingway escreveu “Adeus às armas”. Publicou este famoso romance no final da década de 1920. Com traços autobiográficos o livro fala de amor, sofrimento e lealdade, foi produzido sob o impacto do autor ante a tragédia da primeira guerra mundial.

Vamos refletir um pouco sobre o Brasil dos últimos dois anos. Inconformados com a vitória, apertada, de Dilma Rousseff (PT) sobre Aécio Neves (PSDB), nas eleições de 2014, milhares de brasileiros/as tomaram as ruas pedindo impeachment da presidenta da República. A partir do aprofundamento das ações da operação lava-jato, o tema da corrupção tornou-se o foco mais intenso das críticas. Assim sendo, os atos públicos pediam a saída da chefe do poder executivo para que a ‘moralidade’ e a ‘honestidade’ se instalasse no país. A partir daquele período toda vez que a Presidenta aparecia na TV,  tornaram-se comuns os famosos panelaços acompanhados de buzinaços, atos estes geograficamente localizados nas regiões urbanas de maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) das cidades brasileiras. Daí se depreende que a ampla maioria da massa que trajou-se de verde e amarelo e seguiu o pato (símbolo da dimensão empresarial do golpe no Brasil), é composta pela classe média de nosso país.

Esse grupo social tem perfil conservador e autoritário, como constata a professora Marilena Chaui: “Como a tradição autoritária da sociedade brasileira não pode admitir a existência de uma classe trabalhadora que não seja constituída pelos miseráveis deserdados da terra, os pobres desnutridos, analfabetos e incompetentes, imediatamente passou-se a afirmar que surgiu uma nova classe média, pois isso é menos perigoso para a ordem estabelecida de uma classe trabalhadora protagonista social e política”. A filósofa refere-se ao avanço de milhões de pessoas que sairam da linha da pobreza e passaram ao consumo durante os governos de Lula e Dilma. Essa ascensão econômica que possibilitou aos mais pobres frequentarem aeroportos incomoda fortemente esse grupo que bateu panelas. Lembrem-se das postagens negativas de passageiros comparando aeroportos com rodoviárias.

Por sua vez, o professor Jessé Souza, afirma no livro “A RADIOGRAFIA DO GOLPE”, que a história do Brasil tem visto uma sequência de golpes de Estado que usaram a corrupção como mote, por um motivo simples: ela se presta sem esforço a ser tomada arbitrariamente como arma seletiva contra o inimigo político de ocasião. Foi a partir dessa combinação pouco perceptível para a maioria da população que se montou a farsa deflagrada no golpe de 2016. Prossegue o estudioso, avaliando que o tal “chamado das ruas”, cuja origem estaria nas manifestações de 2013,  foi o disfarce utilizado para deslegitimar e derrubar o governo democraticamente eleito da presidenta Dilma. Mais uma vez, assim como ocorreu com Getúlio Vargas em 1953, a inteligência do golpe se apoiou no discurso moralista de ocasião que operou de forma competente a ocultação dos reais interesses econômicos e corporativos de todos os atores envolvidos.

Mesmo que o processo de impeachment seja recente, é possível analisar junto com os pensadores Chaui e Souza, entre outros, a engenharia complexa, bem articulada, que manipulou de forma competente o processo midiático, político, jurídico e empresarial que engendrou o golpe.

Ainda mais cristalina fica a cada dia a manipulação da massa, a partir do silêncio sepulcral de panelas e buzinas, mesmo que o atual governo golpista de Michel Temer (PMDB), seja mais denunciado por corrupção do que a equipe de Dilma. Ou seja, o discurso do malfadado ‘chamado das ruas’, era apenas uma cortina de fumaça a encobrir o antigo autoritarismo desse extrato social que atendeu o chamado de movimentos, como MBL, Vem pra rua, que hoje apoiam as reformas de retirada de direitos dos trabalhadores.

Isto posto, é possível afirmar: bateram panelas, buzinaram e foram às ruas por ódio às políticas de inclusão social das camadas mais populares, afinal, se tivessem de fato lutado contra a corrupção nestas alturas da história as panelas por melhor material que tenham estariam sem fundos de tanto serem batidas.

A sociedade brasileira não teve ainda a oportunidade de vivenciar a aplicação do conjunto dos direitos sociais contidos na Constituição Federal de 1988. O governo ilegítimo de Temer (PMDB), aplica um pacote de reformas de supressão desses direitos, atendendo os interesses do capital financeiro mundial. Esta é a etapa programática do golpe que se aprofunda a cada dia em nosso país.

Seria muito importante que a parcela da população que foi às ruas pedindo o combate à corrupção pudesse se somar nos dias de hoje ao esforço contra a retirada de direitos. O combate à corrupção é tarefa do conjunto da sociedade brasileira que deve se mobilizar para que a pressão social possa fazer desenvolver instrumentos de controle social que previna o surgimento da corrupção, como países mais avançados lograram conquistar.

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